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Remédio experimental descoberto com IA reduz idade biológica - resenha crítica

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Editora: 12min

Resenha crítica

Todo mundo tem duas idades

Existe a idade do documento, contada em anos desde o nascimento, e existe uma estimativa de quanto o corpo parece ter envelhecido por dentro. Essa segunda medida é chamada de idade biológica, e quem a calcula são ferramentas conhecidas como relógios de envelhecimento: modelos que analisam alterações químicas no organismo para estimar o grau de funcionamento das células e dos tecidos de uma pessoa.

Esses relógios não medem todos a mesma coisa. Alguns foram construídos para estimar a idade cronológica a partir das proteínas presentes no sangue; outros estão mais ligados ao risco de mortalidade. É por isso que um resultado ganha peso quando vários deles apontam na mesma direção, e é exatamente esse tipo de coincidência que apareceu agora em um estudo publicado na revista científica Nature Biotechnology e apresentado na segunda-feira, em uma conferência da Nature na Universidade Sorbonne, em Paris.

A terapia nasceu para tratar o pulmão, não o envelhecimento

O tratamento em questão chama-se rentosertib, é experimental e foi desenvolvido pela Insilico Medicine, empresa de descoberta de medicamentos com inteligência artificial. O alvo original não tem nada a ver com longevidade: é a fibrose pulmonar idiopática, doença que provoca cicatrizes nos pulmões e compromete a respiração ao longo do tempo. Segundo O Globo, trata-se de uma doença incurável.

O estudo que gerou os dados era um ensaio clínico de fase 2a, feito entre 2023 e 2024 em 21 centros na China, randomizado, duplo-cego e controlado por placebo. Ao todo, 71 pacientes receberam diferentes doses do rentosertib ou placebo. Parte deles autorizou uma análise mais detalhada das proteínas do sangue, e depois de uma exclusão por falta de dados sobraram amostras de 42 participantes, acompanhados por 12 semanas. Foi nesse subgrupo que os pesquisadores decidiram olhar também para marcadores de idade biológica.

Alex Zhavoronkov, fundador e co-presidente executivo da Insilico, resumiu o achado ao Fox News Digital como algo que não estava no plano. "Há uma tendência promissora de reversão da idade, além do tratamento da doença, e ela veio como um bônus do tratamento", disse. Na mesma conversa, ele acrescentou a ressalva: "Basicamente significa que você é estimado como mais jovem por um conjunto validado de relógios de envelhecimento. Ainda não sabemos o que isso quer dizer."

O que os relógios mostraram

A análise acompanhou 2.841 proteínas do sangue e aplicou seis relógios proteômicos diferentes, desenvolvidos por equipes da própria Insilico, de Harvard, da Universidade de Pequim e de outras instituições. Todos os seis indicaram redução da idade biológica calculada entre os pacientes que tomaram rentosertib. No grupo placebo, as mudanças foram pequenas ou houve leve aumento.

O efeito mais forte apareceu na quarta semana, entre os participantes que tomaram 30 mg duas vezes por dia. Alguns modelos indicaram queda equivalente a cerca de três a quatro anos; em uma das medições, a diferença chegou a aproximadamente seis anos. O benefício diminuiu depois, ao longo do restante do ensaio.

Há dois outros dados que os autores usam para sustentar o sinal. O tratamento alterou a trajetória de 326 das proteínas analisadas, contra apenas duas com mudança significativa no grupo placebo. E, quando os pesquisadores compararam os resultados com dados de mais de 55 mil pessoas do UK Biobank, encontraram várias proteínas que se moveram na direção oposta à que normalmente se observa com o avanço da idade.

Sobre segurança, Carol Ann Satler, vice-presidente sênior de desenvolvimento clínico da Insilico, disse ao Fox News Digital que os riscos e efeitos colaterais se mostraram manejáveis: diarreia leve, potássio ligeiramente mais baixo no sangue e aumentos temporários de enzimas hepáticas. "Quando se interrompe o medicamento, essencialmente eles voltam ao normal", afirmou.

Como a inteligência artificial entrou no processo

A IA aparece em duas etapas, e não como quem "criou uma cura". A Insilico identificou primeiro o alvo do rentosertib, a proteína TNIK, como um elemento envolvido no envelhecimento, usando uma ferramenta que vasculha grandes volumes de dados para classificar candidatos a alvo terapêutico. Depois, recorreu a outra ferramenta, que faz triagem virtual de moléculas e sugere formas de otimizá-las, para desenhar e refinar o composto capaz de atuar sobre essa proteína.

Zhavoronkov descreve a abordagem como uma busca por aquilo que ele chama de "criminosos moleculares": alvos biológicos que podem contribuir ao mesmo tempo para o envelhecimento e para uma doença. A promessa geral da IA nesse campo, segundo O Globo, é encurtar prazos de pesquisa, aumentar as chances de sucesso e propor hipóteses que talvez não passassem pela cabeça de pesquisadores humanos. O estudo reuniu, além da Insilico, pesquisadores de Harvard Medical School, Stanford, Broad Institute, RWTH Aachen, Universidade de Pequim e Universidade Westlake.

As ressalvas que os próprios autores fazem

A limitação mais séria não é o tamanho da amostra, embora 42 pacientes em 12 semanas seja pouco. É o fato de que todos os participantes tinham fibrose pulmonar idiopática, uma doença que altera muitas das mesmas proteínas usadas para calcular idade biológica. Ou seja: é possível que a melhora do quadro pulmonar seja o que explica a mudança no sangue, e não algum efeito sobre o envelhecimento em si. Os autores escrevem que os relógios captam alterações em proteínas ligadas ao envelhecimento, mas ainda não permitem determinar quanto do efeito vem da própria doença.

Os pesquisadores também reconhecem que os resultados se baseiam apenas em mudanças de proteínas no sangue, e que não demonstram que a terapia retarda o envelhecimento, mantém as pessoas saudáveis por mais tempo ou prolonga a vida. Nada ali sustenta o uso do rentosertib como tratamento antienvelhecimento. "É um piloto", disse Zhavoronkov ao Fox News Digital. "É cedo e exploratório. O medicamento ainda é investigacional."

Por que as farmacêuticas estão de olho

O contexto ajuda a entender por que um resultado preliminar virou notícia. Entusiastas da longevidade defendem há tempos o reaproveitamento de medicamentos já existentes para retardar o envelhecimento, e as tentativas de criar novos remédios antienvelhecimento acabaram fracassando com frequência. O que mudou, segundo O Globo, foi a chegada dos tratamentos com GLP-1, cujos benefícios agora parecem ir muito além da perda de peso e do diabetes: grandes farmacêuticas passaram a demonstrar interesse crescente no campo.

Empresas como a Insilico escolheram um caminho específico dentro disso, as terapias de uso duplo, capazes de combater doenças relacionadas à idade e, ao mesmo tempo, ajudar as pessoas a viver mais. A companhia afirma que planeja fazer análises semelhantes para pelo menos metade dos medicamentos em seu pipeline, o que transforma esse estudo em algo mais parecido com um modelo de trabalho do que com um achado isolado.

Há um obstáculo formal nesse plano. Hoje é impossível obter aprovação regulatória especificamente para envelhecimento. Zhavoronkov sugeriu que resultados como esses abririam caminho para médicos prescreverem ou testarem o rentosertib com essa finalidade, ou para doenças relacionadas à idade, depois que a terapia fosse aprovada para outros usos.

O que se sabe e o que ainda falta descobrir

Está estabelecido que, em um ensaio de fase 2a com 42 pacientes analisados, seis relógios proteômicos diferentes apontaram na mesma direção, com queda estimada de cerca de três a quatro anos na idade biológica e até seis anos em uma das medições, com pico na quarta semana e na dose de 30 mg duas vezes ao dia. Também está estabelecido que o efeito diminuiu depois, que os efeitos colaterais relatados foram considerados manejáveis pela empresa e que os marcadores voltam ao normal quando o tratamento é interrompido. E está estabelecido que o rentosertib avançou para um estudo de fase 3, de um ano, com mais de 300 pacientes na China, para a doença pulmonar.

O que falta descobrir começa pela pergunta central: o sinal é sobre a terapia ou sobre a doença? Enquanto todos os participantes forem pacientes com fibrose pulmonar idiopática, não há como separar as duas coisas, e os autores dizem isso. Por isso vale acompanhar dois pontos nos próximos estudos. Se ensaios futuros incluírem adultos mais velhos saudáveis e populações sem a doença pulmonar, será possível testar a hipótese de efeito antienvelhecimento; se não, o achado continua preso ao contexto de uma doença específica. Satler indicou que o próximo ensaio vai ajustar as doses conforme o perfil de efeitos colaterais, para que os pacientes consigam permanecer mais tempo em tratamento, o que também diz algo sobre a durabilidade do efeito.

Vale observar, ainda, se outras empresas adotam o mesmo par de ferramentas, descoberta assistida por IA somada a relógios de envelhecimento aplicados aos próprios ensaios, como a Insilico diz que fará com metade de seu pipeline. E convém manter a régua no lugar: por ora nenhuma agência aprova tratamento para envelhecimento como indicação isolada, e os próprios pesquisadores dizem que os dados atuais não bastam para chamar o rentosertib de terapia antienvelhecimento.

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